segunda-feira, 22 de junho de 2009

Desenvolvimento moral

Após a leitura do texto, Significações de Violência na Escola: equívocos da compreensão dos processos de desenvolvimento moral na criança? de Jaqueline Santos Picetti, foi solicitado um relato de uma situação experienciada em sala de aula, procurando analisá-la teoricamente com base no referencial piagetiano sobre o desenvolvimento moral.

Todo início de ano procuro estipular regras de convivência com os alunos, observando direitos e deveres, para que se possa tornar o trabalho mais produtivo e tranqüilo. Contudo desde 2007, procuro organizar com eles essa tarefa e percebo que dessa forma ficam mais comprometidos a cumprirem. Através do diálogo explico de sua utilidade e pouco a pouco eles vão compreendendo. Em sua dissertação de mestrado, Liseane Silveira Camargo (2007) afirma que:

A heteronomia precisa ser bem trabalhada, ou seja, o adulto precisa saber introduzir as regras à criança, argumentando-as através de sua utilidade, pois, como serão referências iniciais para o agir moral, precisam estar amparadas principalmente pela argumentação.

Trabalhando com uma turma de 1°ano com alunos entre seis e oito anos,
observo muitas vezes uma dificuldade de dividir brinquedos e materiais que sei ser própria do egocentrismo, característico do estádio pré-operatório em que alguns se encontram. Jaqueline Picetti (2001) comenta que:
Seria importante a escola inserir em seu contexto o respeito pelo processo de desenvolvimento moral, não tachando mais certos comportamentos como violentos, mas como características de uma determinada fase da construção da autonomia da criança, pois, para que o sentimento de justiça se desenvolva, são necessários o respeito mútuo e a solidariedade entre as crianças e os adultos.
Mesmo tendo conhecimento de que todas as coisas da sala de aula e na pracinha são de uso coletivo, às vezes acontecem brigas. Nessas ocasiões chamo os envolvidos e pergunto o que ocorreu e faço com que percebam a regra quebrada. Normalmente os demais alunos se envolvem no assunto e todos sabem dizer de que regra está sendo falada.
Muitos alunos já conseguem emprestar voluntariamente e dividir suas coisas numa boa, sem que a professora precise interferir na brincadeira, o que de fato não é o ideal, mas sendo necessário em certas horas. Numa relação desse tipo é baseada no respeito e na cooperação, contrário de uma relação hierárquica onde a cooperação significa obediência para não ter uma sanção. Segundo Camargo 2007, “O respeito, diferente da obediência, é um sentimento construído nas relações interpessoais e vivenciado inter e intrapessoalmente.”
Somente quando o adulto reduz o seu poder ao mínimo é que a criança pode desenvolver sua autonomia. Procuro deixar que resolvam seus desentendimentos sozinhos, mas fico sempre observando para evitar que se machuquem. Faço-os refletirem se o que fizeram foi legal, se gostariam que fizessem com eles, se tivessem no lugar do outro como se sentiriam. Penso que assim proporciono um momento de entendimento de que os outros tem ideias, desejos, intenções e sentimentos que são diferentes dos seus e devem ser respeitados.

[...] que as crianças dos anos iniciais do Ensino Fundamental (7 – 10 anos) estão construindo as noções de justiça, solidariedade, intencionalidade e responsabilidade. Esse processo tem características peculiares que incidem no comportamento. Durante essa construção, é importante que o professor esteja atento aos acontecimentos, pois ele poderá auxiliar as crianças a refletirem sobre as diferentes situações vivenciadas na escola. (PICCETTI 2001 )

A afirmação citada foi baseada no construtivismo de Piaget (1987) que diz que o desenvolvimento moral é um processo de construção interior,portanto regras externas tornam-se próprias da criança somente quando ela as adota e as constrói por sua livre vontade. Infelizmente, a maneira que as crianças mais aprendem as regras morais e sociais é por meio da obediência aos adultos, com autoridade.


O objetivo da educação moral que visa ao desenvolvimento da autonomia deve ser ode proporcionar situações que desfaçam a crença da criança de que a regra tem relação direta à autoridade do professor. (CAMARGO 2007)

Segundo os estudos de Piaget as relações de constrangimento (controle externo) não favorecerão o desenvolvimento moral, porque elas impedem o desenvolvimento da autonomia (controle interno). Como um ser biológico adaptativo, a criança normalmente reage às pressões do meio, deixando sua conduta ser governada por estas pressões. Pode se comportar assim por querer receber um elogio ou evitar punições. Na medida em que pode escolher e decidir, tem a possibilidade de cooperar voluntariamente com os outros e construir suas próprias regras morais.


REFERÊNCIA:
CAMARGO, Liseane Silveira. Reflexões sobre a moralidade na escola. Artigo baseado na dissertação de mestrado, 2007.
PIAGET, Jean. O nascimento da inteligência na criança. Rio de Janeiro: Guanabara,
1987.
PICETTI, Jaqueline dos Santos. Significações de violência na Escola: Equívocos da compreensão dos processos de desenvolvimento moral na criança? Educação e Cidadania, 2001.

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